Miguel e Sinatra: Como um cão ajudou uma criança a vencer o autismo

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Mafalda e Daniel casaram-se em 2009, em Sintra, dois anos depois de começarem a namorar. Nos desejos de casamento vinha a vontade de ter um cão com o nome de um dos artistas mais influentes na vida de Mafalda (e em tantas outras), Sinatra. O nome estava escolhido, faltava o acordo no tamanho. Mafalda preferia de pequeno porte, Daniel batia o pé.

A certa altura, um labrador conquistou o casal. Depois de colocar a pata em cima de Mafalda, esta ficou rendida. Chegado a casa, o labrador que destruía tudo o que via à sua frente, e que ficou apelidado de “maluco“, vinha a ter um papel fundamental na vida de Mafalda e Daniel.

Sinatra tornou-se o melhor amigo do primeiro e único filho do casal, diagnosticado com autismo aos 18 meses. Miguel não comunicava com a família e tinha dificuldades em estar em locais com muitas pessoas. Sinatra acompanhava-o, recolhia as atenções para ele e foi o grande apoio de Miguel. Tornou-se o primeiro cão de assistência em Portugal e Mónica Menezes decidiu contar a história de Miguel e do seu cão, no livro Uma Amizade Especial.

Actualmente, há médicos que defendem que Miguel não tem nenhuma Perturbação do Espectro do Autismo e não está referenciado na escola como uma criança com necessidades especiais. No entanto, Mafalda não teme que isso possa vir a acontecer, mas acautela que referenciar uma criança é “jogar com o futuro dele e com o rótulo que vai ter”.

Conversámos com Mafalda, mãe e dona de Miguel e Sinatra, respectivamente, e com a autora da obra.

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Como é a sua relação com o Daniel?
Foi uma relação que cresceu de forma muito natural, nós já éramos amigos há muito tempo. Já fazíamos férias juntos. As nossas famílias eram do ciclo comum. Depois começamos a ser mais amigos e começámos a namorar. Casámos muito rapidamente – com 22 anos já estávamos casados.

Depois de casados que perceberam que queriam um cão?
Sim, na minha família já havia um cão pequenino e eu queria manter isso – um cão de porte pequeno que, supostamente, seria mais fácil de lidar. Mas o Daniel dizia sempre: ‘se é para ter um cão, é para ter um cão a sério. De 30 quilos para cima’. E então começámos a ponderar outras hipóteses, por mim estava bem um cão – era o meu sonho.

Esteve em cima da mesa se adquiríamos um labrador, um pastor alemão… Mas depois pensámos que como primeira experiência era melhor um labrador.

Esta procura demorou algum tempo, porque os donos conscientes, ou os futuros donos conscientes, devem fazer uma pesquisa quando a intenção é adquirir um cão. Começámos a pesquisar criadores e a discutir ideias com eles.

Até que visitamos um criador e eu apaixonei-me. Apesar de quando me entregaram o Sinatra – depois de decidirmos que era um macho – eu achei-o demasiado grande e disse que não. Pensei: “Não é isto, eu quero um daqueles cães tipo scottex”.

Mas os criadores eram tão conscientes: “Estes cães só partem com este tamanho, pois só quando adquirem esta maturidade é que nós os deixamos sair”. E depois ele meteu a patinha em cima de mim, como que a pedir “vá lá, leva-me”.

Que ingredientes é que consideraram antes de levar o Sinatra para a sua casa?
Alguns dos factores que se devem considerar quando se pensa em ter um cão, no caso, de raça, deve ser, em primeiro lugar, se os criadores estão registados correctamente. Se têm tudo legalmente no Clube Português de Canicultura. Se o cão tem o livro de origens – para conseguirmos perceber o Pedigree dos pais, dos avós e até dos bisavós. Deve ter todos os testes feitos de saúde.

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Como foi a primeira vez que esteve com o Sinatra?
Ele estava muito nervoso e estava a babar-se a olhar para mim – ainda hoje quando se enerva faz isso. Tinha a cabeça baixa e meteu a patinha no meu peito e eu disse logo: ‘pronto Sinatra, vamos para casa’. Já tinha o nome para ele e tudo. E pronto, acabou por ir para casa fazer companhia ao nosso coelho, Elvis.

O porquê deste nome? Tem a ver com admiração pelo músico?
Frank Sinatra , Elvis Presley e Freddy Mercury – que ainda não houve um terceiro animal para colocar. Sinatra sempre foi uma grande influência nas nossas vidas e então o nome já estava escolhido antes de termos sequer animais.

O Elvis Presley já não existe – tal como o original – mas dava-se bem com o Sinatra.

Como era o Sinatra antes da chegada do Miguel?
Era um cão maluco, aliás, o Sinatra continua a ser um cão maluco, mas só quando não está a trabalhar. É um cão muito feliz. Faz asneiras e destruiu-me a casa toda como qualquer labrador – acho que é uma das especialidades dos labradores. Quando estão sozinhos são umas armas de destruição. Sapatos, telemóveis, comandos, rodapés, portas, nos primeiros dias o Sinatra destruiu muita coisa. Mas por outro lado era um cão muito meigo, sempre foi muito doce, é um cão perfeito.

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Com o Miguel também havia essa relação de amizade?
Sim e deu muito gozo treinar o Sinatra, porque ele ficava muito contente por receber tarefas, de as cumprir, e depois receber as recompensas. O Sinatra com dois dias em casa já dava as duas patas e sentava. Era um cão super fácil de treinar.

Mais tarde engravida, algo que não estava à espera.
Sim, ao contrário do Sinatra, o Miguel não foi planeado. Não fazia de todo parte dos nossos planos, aos 23 anos, ser mãe. Aconteceu. Na altura estava a passar uma fase trágica na minha vida, tinha perdido o meu irmão, e foi aí que descobrimos que estava um ser novo a caminho da nossa casa.

Não fazia parte dos nossos planos, até porque a nossa casa era pequenina e para nós não era a situação ideal. Chorei bastante, não fiquei nada feliz. Mas depois interiorizei que se era uma criança, nunca poderia ser uma má notícia.

Depois ficámos muito felizes e todo o processo da gravidez correu lindamente.

Mas foi o Sinatra que descobriu primeiro o Miguel. Certo?
Sim, o Sinatra percebeu possivelmente pelo cheiro, alguma movimentação, não sei bem explicar. Mas detectou ali qualquer coisa de diferente em mim e deixou de ser o cão maluco que era, mas só comigo. Com o meu marido e com outras pessoas continuava igual.

Como não me apercebi de imediato que ele com os outros continuava igual pensava que ele estaria doente. Comecei logo a chorar e a querer levá-lo para o veterinário.

Mas depois percebi o porquê, e ele nunca mais saltou para cima de mim até ao dia em que sai do hospital.

Houve alterações no comportamento dele durante a gravidez?
O Sinatra nunca tinha rosnado. A não ser quando eu estava grávida. Nenhum cão se podia aproximar da minha barriga, de mim, ele estava muito protector comigo. Percebi depois que não era comigo, era com o bebé.

 

Via Sábado.

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